Alentejo

(scroll down for english version)

O Alentejo chamou por mim estes dias e eu deixei-me ir.

E agora que voltei percebo (como percebo sempre que volto) que ser alentejano é muito mais do que ter nascido no Alentejo. Ser alentejano é um estado de alma, é nascer com qualquer coisa a mais inscrita na sequência genética. Um código que não se explica nem se traduz em características físicas ou sequer psicológicas. É qualquer coisa que nos corre nas veias, silenciosamente. Que nos acompanha o bater do coração de um modo sereno, como que acompanhando a forma da planície que se estende até ao horizonte, a perder de vista, mas gritando de vez em quando. É o apelo da terra, é a vontade e a necessidade de regressar, de ter de encher os pulmões daquele ar que é só dali, daquele cheiro que é só dali, daquelas cores que são só dali.
E não é preciso ficar-se muito tempo para se regressar melhor. Não porque se descansou, não porque se desligou, mas apenas porque se atendeu ao chamamento. Porque nós somos feitos de muitas coisas e uma delas é o sítio a que pertencemos, mesmo que passemos por e gostemos de muitos outros. E, perdoem-me todos aqueles que pertencem a outros sítios, mas eu acho mesmo que pertencer a este é uma coisa especial.

I’ve been spending these last days back home, in Alentejo. And now that I’m back I have this feeling I always have every time I go there (and I do it quite often) that being ‘alentejano‘ (i.e., having my origins in Alentejo) is something unique. It’s like having this unique information written inside our genetic code. That information does not translate into any physical or psychological characteristics. It’s something that runs, silently, into our veins, something that helps our hearts beat. And because of this, every now and then, we feel this need to go there and breathe that unique air, and smell those unique smells and see those unique colors. And when we come back we feel better. Not because we rested or disconnected from the world but because we answered to Alentejo’s calling.
We are all made of several different things, and one of those things is the place were we belong to, even if we have the change of living and liking several other places. And belonging to Alentejo (forgive me those of you that don’t belong there) it’s something quite special.

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6 thoughts on “Alentejo

  1. deve ser optimo ter esse sentido de pertença :) adoro lisboa mas de facto não nos provoca esse sentido de pertença ;)

  2. “… mesmo que passemos por e gostemos de muitos outros.” Apesar de não ter nascido lá, é lá que sinto isto mesmo. Talvez por também sentir o dito “chamamento” vindo de terras de África e apesar de as cores serem um pouco diferentes e os cheiros também, mas há algo de muito parecido, talvez a imensidão da planície por vezes pontuada por uma pequena árvore aqui e ali… os vários tons de castanho e avermelhados… e os cheiros que tornam ambos únicos!

    1. Tem graça fazeres essa referência porque já por várias vezes dei por mim a pensar que, para além do Alentejo, só encontro este sentimento em quem tem origens em África (podendo ser isto uma generalização abusiva mas enfim, é a minha percepção e como se sabe a nossa realidade mais não é do que aquilo que percepcionamos dela, por isso perdoe-me quem puder sentir-se ofendido). E nunca estive em África (ou melhor, estive no Norte de África, na Tunísia, mas isso não é a África “a sério”) mas concordo contigo na identificação das paracenças.
      Fala-se muito do Alentejo para se dizer que não se passa lá nada e que não vive lá ninguém, principalmente do interior (que é precisamente de onde venho), e se há ideia que eu me esforço por refutar é a de que a minha terra é pouco mais do que um deserto que tem de se ultrapassar para chegar ao Algarve. Felizmente hoje já se tem uma ideia diferente e já se olha para o Alentejo de outra forma (e para isso muito tem contribuido o trabalho da Região de Turismo do Alentejo) mas acredito mesmo que o Alentejo é uma região com personalidade e com um potencial imenso, nem que seja para isto: para irmos lá e regressarmos melhores. Há lá coisa mais valiosa nos dias de hoje? :)

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