Viagem para o Alentejo // Driving from Lisbon to Alentejo

(scroll down for english)

A viagem para o (meu) Alentejo, que faço em média 2 vezes por mês, é chata de se fazer. Não vale a pena fingir que não é e pintar de cor de rosa os cerca de 170 Km daqui até lá. O trânsito não é particularmente intenso mas é chato (abundam os camiões, máquinas agrícolas e condutores de fim-de-semana), o piso já teve dias melhores (desde que circular na A23 se tornou proibitivo é ver os buracos somarem-se) e ainda são duas horas para cada lado e, gostando eu de conduzir, não consigo evitar pensar que é tempo que podia alocar a coisas mais interessantes. Por isso faço quase sempre a viagem em piloto automático (eu, não o carro), focada na música que vou a ouvir e no tempo que falta para chegar.

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Mas há dias em que a pressa se esquece de fazer a viagem comigo, e quando desligo o modo automático e me foco no que tenho à minha volta, a vontade de parar para respirar, absorver e fotografar é maior do que a vontade de chegar rapidamente.

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Confesso que, nestas viagens mais contemplativas, ficava sempre frustrada quando chegava a casa e olhava para as fotografias porque aquilo que se vê e se sente nunca mas nunca se consegue captar e mostrar numa fotografia. Mas aprendi a aceitar este facto como incontornável porque sei que para conseguir fazê-lo teria de ser capaz de fotografar o cheiro daquela terra, porque cada vez mais me convenço que é o seu cheiro que a torna verdadeiramente única.

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show-me-pretty-alentejo-lisboa4Por isso deixo-vos algumas imagens e um convite para irem até lá absorver o que falta aqui :)

Even though I’ve been living in Lisbon for more than 10 years, I’m from a part of the country called Alentejo. And not only because a very important part of my family lives there (my parents and grandmothers) but also because I love that region/place with all my heart, I drive there two times a month.
I love being there but the driving is kind of boring: it takes me about two hours to get there and, don’t get me wrong, I really like do drive, but I can’t help but think I could make a better use of those hours!
But every now and then I really enjoy the journey and don’t mind spending more than two hours doing it. I stop here and there, I admire the beautiful landscape, I breathe that amazing and unique air and, of course, I take lots and lots of photos. I am aware of the fact that the scenery I capture with my camera is somehow different from the one you get to feel and experience being there. Because no matter how great the photo is, I will never be able to capture the smell, the noises, the emotions that amazing place makes you feel. But I’m ok with that (I wasn’t in the beginning, but I am now). And that’s why I share these photos with you and invite you to come see it with your eyes.

Como fazer um esforço para actualizar o blogue regularmente // How to make an effort to update your blog on a regular basis

(click here for english translation)

Nos últimos tempos, fruto de uma agenda mais apertada (na verdade a agenda de aperto pouco tem, o meu cérebro é que anda a todo o gás e com toda a energia completamente direccionada para aquilo que é mais urgente e importante neste momento), este site que tanto estimo tem ficado, como já disse antes, para segundo plano (e às vezes terceiro ou quarto!). Mas isso tem mesmo que acabar, nem que eu tenha de me desviar um bocado dos objectivos que me levaram a criá-lo porque, convenhamos, o primeiro objectivo de todos é ter um espaço onde possa partilhar os meus devaneios com o mundo (ou, pelo menos, com um grupo de pessoas dentro do grupo total de pessoas do mundo, vá). E neste momento já posso dizer que há, de facto, um grupo de pessoas que o faz. (Ainda) não é elevado mas também já não se resume àqueles dois ou três amigos que vinham cá simpaticamente deixar uns comentários para motivar a amiga aspirante a blogger (a quem muito agradeço, ouviram dois-ou-três amigos? Não me interpretem mal!).

Posto isto, se calhar nos próximos tempos em vez de partilhar fotografias mais ‘elaboradas’ partilho fotografias do Instagram (que esse anda sempre comigo para todo o lado e faz o trabalho quase todo sozinho) e em vez de partilhar coisas feitas por mim partilho coisas feitas por outras pessoas e em vez de falar mais dos principais temas do blogue falarei mais sobre coisas do dia-a-dia. Mas farei um esforço para ser assídua nas actualizações, começando agora. Por isso, aqui vai disto: partida, lagarta, fugida! (sim, que eu faço parte do grupo de pessoas que dizia lagarta, porque lagarta tem muito mais piada!)

O meu Alentejo sabe a morangos

(i promise to write the english version later. for now, click here)

Ainda (e sempre) a propósito do Alentejo, tive a ideia de fazer uma série de cinco posts, em que tentarei fazer um retrato (literalmente, porque serão mais feitos de fotografias do que de palavras) do meu Alentejo utilizando, um de cada vez, cada um dos 5 sentidos (o 6º está implícito em todos ;) ). A ordem é arbitrária e irei fazê-los ao sabor do vento e da vontade (a mesma que me faz precisar de ir até lá volta e meia).

Decidi começar pelo paladar. E se é verdade que o meu Alentejo sabe também àquilo a que todo o Alentejo sabe (se há sítio onde se come e bebe bem, é por lá), não é menos verdade que ele tem também sabores muito especiais.

E se há coisa a que o meu Alentejo sabe, é a morangos.

Gordos, doces, muitos e sempre acabados de colher. Directamente da terra ou de maravilhosos (e fotogénicos) jardins suspensos. E ainda que, quando se entra na estufa, não se perceba logo o que lá está, se nos baixarmos à altura do filho do produtor (um menino do mais doce e traquinas que existe, de que já falei aqui antes), a coisa muda de figura.

E dá vontade, não só de não parar de fotografar mas também – e em igual proporção (ou maior, dependendo do apetite) – de começar a trincar.

A técnica de cultivo tem nome pomposo e parece que permite produzir morangos mais saudáveis, porque a probablidade de por lá aparecerem bichos a quererem provar é menor (logo, é também menor a probabilidade de ter de usar produtos para acabar com eles).

Mas aquilo que realmente importa – técnicas de cultivo à parte – é que sempre que lá vou trago uma caixa comigo. E se há fruta que por estas bandas se come com gosto e em abundância, é toda a que é vermelha até ao tutano (seja a solo, misturada com iogurtes gregos ou envolta em massa de scones prestes a entrar no forno).

Por isso não se espantem quando vos digo que nos últimos tempos, em média, têm marchado 2 a 3 kg por mês nesta casa. Nós, por cá, ficamos felizes com este número. E por lá o Júlio e a família (os produtores) também ficam com certeza.

Alentejo

(scroll down for english version)

O Alentejo chamou por mim estes dias e eu deixei-me ir.

E agora que voltei percebo (como percebo sempre que volto) que ser alentejano é muito mais do que ter nascido no Alentejo. Ser alentejano é um estado de alma, é nascer com qualquer coisa a mais inscrita na sequência genética. Um código que não se explica nem se traduz em características físicas ou sequer psicológicas. É qualquer coisa que nos corre nas veias, silenciosamente. Que nos acompanha o bater do coração de um modo sereno, como que acompanhando a forma da planície que se estende até ao horizonte, a perder de vista, mas gritando de vez em quando. É o apelo da terra, é a vontade e a necessidade de regressar, de ter de encher os pulmões daquele ar que é só dali, daquele cheiro que é só dali, daquelas cores que são só dali.
E não é preciso ficar-se muito tempo para se regressar melhor. Não porque se descansou, não porque se desligou, mas apenas porque se atendeu ao chamamento. Porque nós somos feitos de muitas coisas e uma delas é o sítio a que pertencemos, mesmo que passemos por e gostemos de muitos outros. E, perdoem-me todos aqueles que pertencem a outros sítios, mas eu acho mesmo que pertencer a este é uma coisa especial.

I’ve been spending these last days back home, in Alentejo. And now that I’m back I have this feeling I always have every time I go there (and I do it quite often) that being ‘alentejano‘ (i.e., having my origins in Alentejo) is something unique. It’s like having this unique information written inside our genetic code. That information does not translate into any physical or psychological characteristics. It’s something that runs, silently, into our veins, something that helps our hearts beat. And because of this, every now and then, we feel this need to go there and breathe that unique air, and smell those unique smells and see those unique colors. And when we come back we feel better. Not because we rested or disconnected from the world but because we answered to Alentejo’s calling.
We are all made of several different things, and one of those things is the place were we belong to, even if we have the change of living and liking several other places. And belonging to Alentejo (forgive me those of you that don’t belong there) it’s something quite special.